Issue Home

Essays / Ensayos / Ensaios

Another Kind of Love: A Performance of Prosthetic Politics
Debra Levine

Killing as Performance: Violence and the Shaping of Community
Verónica Zebadúa

The Noble Warrior was a Drag Queen
Kerry Swanson

Eréndira a caballo. Acoplamiento de cuerpos e historias en un relato de conquista y resistencia
Ana Cristina Ramirez

The Underskin of the Screen: Performing Embodiment in Through the Looking Glass
Cynthia Bodenhorst

A Critical Regionalism: The Allegorical Performative in Madre por un día
Amy Sara Carroll

Artists' testimonies / Testimonios de artistas / Depoimentos dos artistas

EDEMA/ Colaboratorio de Arte Público: Ritos de Sanación Social
Eduardo Flores Castillo

O que deve ser um corpo da era da cirurgia plástica?
Helena Vieira

In Every Issue:

Humor / Humor / Humor

Reviews / Reseñas / Resenhas

News and Events / Noticias y Eventos / Notícias e Eventos

Activism / Activismo / Ativismo

Links / Enlaces / Links

O que deve ser um corpo na era da cirurgia plástica?
Descrição de uma performance

por Helena Vieira#

Abstract (English | Portugués)

 

Introdução

Desde o início dos estudos de mestrado debruço-me sobre a idéia de encontrar expressão na história pessoal, ou seja, como uma síntese individualizada é representativa de seu tempo, seu lugar, seu grupo. A célebre frase O homem é um singular universal”, de Sartre, torna-se uma matéria-prima para a pesquisa. Escrevi um pré-projeto de mestrado no qual as questões teóricas tratadas também seriam investigadas cenicamente;  propus, portanto, a criação de uma performance.

A 1ª versão chamou-se El Segundo Sexo (criada durante o ano de 2003) onde exemplifico -- através de histórias pessoais -- questões como a exigência social de que a mulher aos 30 anos seja uma heroína do tipo “mulher-maravilha”, que questões como carreira, maternidade, e sexualidade estejam plenamente equilibradas e bem administradas já que a  prova de  sua feminilidade depende disso, bem como critico o novo paradigma de beleza brasileira mais recente: os peitos de silicone.

A certa altura dos estudos acadêmicos (mais precisamente por ocasião do primeiro colóquio de que iria participar na Universidade) surgiu a dúvida: o trabalho falaria sobre o feminino ou o feminismo? Optei pelo segundo. Percebi que fazer uso do termo feminismo significaria permitir que a performance refletisse gênero como também uma questão política atual e de um ponto bem subjetivo;  trabalhar essa questão também seria tratar  da Revolta, na acepção de Albert Camus, que mais explico. Percebi ao longo da pesquisa que para compreender o tema Gênero é necessário, antes de mais nada, confrontarmos nossos conceitos de identidade e origem para que possamos pensar Gênero dentro da enorme diversidade que este substantivo implica e que, definitivamente, não está apenas circunscrito na questão das minorias sociais. Hall constata que o movimento feminista da década de 60, que começou como um movimento dirigido à contestação da posição social das mulheres, expandiu-se para incluir a formação das identidades sexuais e de gênero.

 No início da criação da performance eu deixava bem claro minha dor e minha crítica quanto a ditadura dos silicones no Brasil que, de uma hora para outra, “varreu” da cena o tipo brasileiro. Depois de um certo tempo, após muita observação, me perguntei: não estaria nas operações plásticas -- se retirássemos daí a lógica da moda, do consumo fetichista para consumo masculino --  um ato de assumir a bandeira do movimento de 1970  “nosso corpo nos pertence”? 

Revolta e Criação   

Quem realmente exerce poder sobre nosso corpo? Nosso corpo é privado ou é público?

A origem da revolta, segundo Camus, aponta para um principio de atividade superabundante e de energias...

Aqui o orçamento de uma operação de silicone como potência e revolta para a criação.

A partir de um desejo, o corpo  deve ser modificado  para se encaixar nos novos padrões de beleza. Agradar o outro passa a ser condição para agradar a si mesmo. O orçamento indica que foi pensado e desejado fazer tal modificação plástica. A operação não foi realizada e no lugar se deu a criação de um solo.

O solo tentará contar uma experiência: a de quem pensou em se submeter a uma cirurgia plástica e ter seu corpo modificado, mas não o fez. A partir deste ponto resolve dar depoimento.

O natural é inexorável? 

A que nação pertencemos? As fronteiras são marcas físicas ou imaginárias nos continentes?  Nossa identidade, a que país pertence, ou a que continente? De que fala um documento?

Fala de nossa identidade pessoal, apresenta a família a qual pertencemos, depois mostra uma identidade nacional e continental. Mas será que realmente nos representa? Pertencemos a todas essas identidades?

Na sociedade patriarcal de origem portuguesa os nomes são muitos; assim se evidenciava  a nobreza. Primeiro vem o nome de solteira da mãe, depois o do pai, que é o mais importante e o único que prova ser um filho legítimo; este nome deve ser o último. Em outras sociedades, só importa mesmo o nome do pai. Pelos costumes de nossos ancestrais, uma mulher troca de nome no casamento, passa a ter o nome de seu cônjuge, para que assim toda a família fique unida. Hoje quase todo o mundo ocidental está revendo essa obrigatoriedade.

Ruptura com a filiação:
a imagem da mãe e o nome do pai

Deleuze em uma palestra feita em 1997 afirmou: “A criação é algo bastante solitário, mas é em nome de minha criação que tenho algo a dizer.”*

Este corpo é feminino ou masculino?  A identidade de quem o carrega é feminina, porém sua forma e como se apresenta aqui é masculina. Seu nome é o único que prova ser um ser feminino, mas a foto não tem legenda e nem tampouco fala, se comunica pela imagem e a imagem é tida como masculina.


A forma começa mudar e o corpo, por baixo da suposta identidade masculina, aparece.

Os seios aparecem, é o suficiente? Talvez, ainda não. Vivemos a era do body modification  e o corpo antes modificado  apenas por tatuagem e piercing  agora o é por operações. Um homem pode virar uma mulher, basta colocar seios e retirar seu  órgão sexual original.

Mas seu corpo modificado, a que lugar pertence?


E, então, que se afirma:

... trata-se de uma mulher. Feminino não é a forma, é a marca desta forma, são suas identidades, são suas identificações.

Portanto, depois de sobreviver à idéia de ter um corpo modificado e submetido ao status-quo judaico-cristão e psicanalítico, e, tentando ser soberana deste corpo, assume-se com o natural dele, ainda que o natural  não seja inexorável  na  era tecnológica.

 

A “impureza” cultural

Durante o encontro do Grupo de Trabalho “Política de Gênero Transnacional/local em performance” no 5º Encontro do Instituto Hemisférico de Performance e Política, ocorrido em Belo Horizonte em março de 2005, deu-se início a um novo processo que muito influenciou para a construção da nova fase da performance.  Estimulada pelas nossas discussões e pelo grupo inteiramente multicultural (um grupo formado por estadunidenses, indígenas, chicana, britânica e brasileira) comecei a re-escrever meu trabalho prático. “É impossível  tomar um objeto para  estudo, sem partir da própria origem cultural do observador”, afirma Richard Schechner 1. Nós, participantes do grupo, enfrentávamos um embate entre nossa primeira identidade e as múltiplas identidades a nossa volta. A partir de tal constatação é que pude ir revendo minhas posições durante meu processo de construção de um trabalho artístico. Transcrevo abaixo as frases que considero as mais significativas da discussão do Grupo de Trabalho.

1. O que tem a ver gênero com a humanidade?

2. Quando gênero é invisível?

3. Quais as fissuras ou limites de gênero?

4. Como você apresenta a feminilidade e a masculinidade?

Arrisco dizer aqui que somos americanos. E pela primeira vez emprego este termo acreditando realmente no sentido que tem, pois durante o Encontro pude perceber que a maioria ali presente era de raíz latina e/ou nativo-americana. Assim como nós, os norte-americanos também têm uma mesma ascendência étnica miscigenada. No entanto, como coloca o antropólogo inglês Peter Fry, há uma grande diferença entre o colonialismo dos portugueses e o britânico; um foi de assimilação enquanto o outro de segregação 2, por conseguinte, há uma enorme diferença nas miscigenações dos dois países, mas não me caberá aqui entrar no mérito. Stuart Hall compreende o continente americano como um local onde se cruzam várias rotas, dos quatro cantos do globo desde a Europa, Ásia e África. Ele acredita que daí venham as  raízes de cada povo. (Hall; 2003, 31)

Para ele, as culturas têm seus locais, mas já não é mais tão fácil apontar de onde elas se originaram. Dito isso, me vi diante de duas dificuldades: a de definir uma unidade nacional e, conseqüentemente, definir a local. E, a partir de tal constatação e, tendo vivido a experiência em Belo Horizonte, é que percebi que teria dificuldades em manter por muito tempo à idéia de uma política identitária de reivindicação tão presente na performance El Segundo Sexo; tornava-se necessário constatar a hibridização ou “impureza” cultural da qual fazemos parte.

 

Page: 1 | 2