A sociedade da aparência

 

Horror ao trabalho

 

A idéia era simplista: caça abundante, pescaria copiosa, terra fértil boas águas, bons ares, por que trabalhar? O tal 'berço da preguiça' , como definia Vilhena e como em outros termos expressavam algumas autoridades coloniais, estava sem dúvida no Brasil. Acreditava-se que aí tudo era fácil e para sobreviver bastava ser destro, esperto, oportunista. Essa idéia, sabemos, atravessou os séculos.

            Deve-se fazer, no entanto, uma distinção. Mesmo nos tempos coloniais separava-se o vadio do preguiçoso, até porque, no parecer dos representantes da Metrópole e no de muitos viajantes estrangeiros, quase toda a população era irremediavelmente preguiçosa Um comerciante francês, L. F. Tollenare,  observou com certo humor em 1817 que

 

o brasileiro ocioso levanta-se ao nascer do Sol, não tem toalete a fazer porque não despe a roupa; fica de ceroulas a fumar junto à porta que só deixa para ir embalar-se na rede. Estende vagamente braço para receber a sua magra ração de farinha de mandioca. Perguntai-lhe onde mora seu vizinho e não saberá dizê-lo. Falar fatiga-o tanto quanto pensar.

 

A inglesa Maria Graham, durante sua permanência no Rio de Janeiro em 1822, faria observação idêntica, sem perder, ao que parece, o bom humor:

Divirto-me com a visível apatia dos caixeiros brasileiros. Se estão empenhados, como atualmente não é raro, em falar de política, ou a ler jornais, ou simplesmente a gozar fresco nos fundos da loja preferirão dizer, na maior parte das vezes, que não têm a mercadoria pedida a se levantar para procurá-la. E se o freguês insistir e apontá-la na loja, é friamente convidado a apanhá-la ele próprio e deixar o dinheiro. Isto aconteceu várias vezes enquanto procurávamos algumas ferramentas em nosso percurso ao longo da rua Direita.

Quarenta anos antes um vice-rei, o marquês do Lavradio, avaliava que

o caráter de alguns americanos destas partes da América que eu conheço, é de um espírito muito preguiçoso: ...são robustos podem com todo o trabalho e fazem tudo aquilo que lhes mandam; porém se não há cuidado em mandá-los, eles por natureza ficarão sempre em inação, ainda a ponto de se verem reduzidos à maior indigência.

 

Todos os visitantes que percorreram algum pedaço do Brasil raramente deixavam de notar a “índole preguiçosa” revelada por seus habitantes. Em 1808 John Luccock estranhava que os artífices brancos se considerassem "todos eles fidalgos demais para trabalhar em público, e que ficariam degradados se vistos carregando a menor coisa pelas ruas ainda que fossem as ferramentas do seu ofício". O perplexo Luccock passa então a contar que um dia precisou de alguém para consertar uma fechadura. Coisa simples. Veio o empregado de uma carpintaria e fez entrada triunfal: vestido em gala, de tricórnio, fivelas nos sapatos e abaixo dos joelhos, chegou e estacou à porta. Precisava de um negro que lhe carregasse o martelo e a talhadeira. O inglês prontificou-se a fazê-lo mas isso constituiria um solecismo tão grande como o de usar ele próprio as mãos", acrescenta. Esperou-se pacientemente até que surgisse um escravo e só aí o trabalho foi iniciado.

Quase sempre esses visitantes contavam e comentavam episódios semelhantes, que os divertiam e escandalizavam. Debret, que permaneceu longo tempo no Brasil, de 1816 a 1831, jamais parece ter-se conformado com ver "um de nossos vizinhos no Rio de Janeiro voltar para casa, dignamente seguido por um negro, cujo enorme cesto continha nesse momento um lápis de cera para lacrar e duas penas novas", ou ainda mulheres "acompanhadas de uma ou duas negras, encarregadas dos pequenos pacotes e até mesmo de levar seu lenço". O hábito era tão difundido que quem assim não se comportasse seria fatalmente estigmatizado e desprezado. Saint-Hilaire foi explícito quanto a isso:

A primeira coisa que seduz um operário em Tejuco, quando ele consegue economizar algum dinheiro, é arranjar um escravo; e tal é o sentido de vergonha dado a certos trabalhos que, para pintar a pobreza de um homem livre, diz-se que ele não dispõe de ninguém para ir buscar-lhe um balde d'água ou um feixe de lenha.

Na primeira década do século XIX Thomas Lindley, em Salvador, estranhou o costume, comum a ambos os sexos, "de deixar crescer a unha do polegar ou do indicador (às vezes de ambos) até chegar a um comprimento horrível". Explicaram-lhe que as violas e guitarras eram tocadas com seu auxílio e aos homens servia ainda para separar as folhas de tabaco e as enrolar nos cigarros. O inglês não resistiu ao comentário mordaz: "Tais unhas sagradas são consideradas como sinal de que quem as possui caracteriza-se por uma natural indolência, o que não é recomendação banal neste país."

Essa mentalidade sequer arrefeceu com o passar dos anos, pois Thomas Ewbank, em 1846, ainda ouvia afirmar que "um jovem prefere morrer de fome a abraçar uma profissão manual"10. A aspiração de todos, segundo ele, era transformar-se em funcionário público, militar, sacerdote, advogado ou médico. Nesta ordem. O aprendizado de um ofício seria considerado simplesmente degradante. E conta que um médico, seu amigo,

 

há alguns anos aconselhou uma pobre viúva, que tinha dois filhos rapazes, um de 14 e outro de 16, a encaminhá-los em ofícios. A viúva ergueu-se, deixou a sala e nunca mais falou com ele, embora tivesse fornecido seus serviços profissionais gratuitamente a família durante oito anos. ...Como exemplo do sentimento nacional serve o seguinte, cujos personagens são conhecidos meus. Um cavalheiro de 18 anos foi convencido a honrar uma casa importadora com seus serviços de escritório. Um pacote, que não era maior do que uma carta dupla, foi-lhe entregue certo dia por um dos sócios da firma, com um pedido para que o levasse a outra firma, situada nas vizinhanças. O jovem olhou para o pacote, em seguida para o negociante, tomou o pacote entre o indicador e o polegar, fitou novamente ambos, meditou por um momento, saiu lentamente e, a alguns metros da porta da casa, chamou um negro, que carregou o pacote e o acompanhou até seu destino!"11

Claro que os estrangeiros viam isso com algum desprezo, pois, como alguns observaram, tamanha indolência levava os artífices a transferirem suas tarefas aos escravos, de onde o inevitável desleixo em tudo que faziam. Em Saint-Hilaire, por exemplo, semelhante comportamento provocou grande irritação. Certa vez, em São Paulo, ele precisava urgentemente de duas malas e peregrinou em vão de marceneiro em marceneiro: logo descobriu que "nenhum havia que trabalhasse com rapidez e fosse pessoa de palavra". Afinal, tratou com um deles para fazer as malas com a devida pressa; transcorridos alguns dias, foi a oficina do marceneiro e este candidamente disse apenas que não podia cumprir o prometido. De nada adiantaram o bate-boca e as ameaças. Na mesma noite, ao jantar no palácio com o governador, o naturalista referiu-se ao motivo do atraso de sua partida; para surpresa sua, aquele o interpelou: "Como, há mais de três anos que o senhor se encontra no Brasil e não sabe ainda como proceder! Deveria ter-se dirigido a mim.”  E mandou um soldado postar-se à porta do tal marceneiro para obriga-lo a trabalhar.12 Disso ficaram acerbos comentários do naturalista:

De acordo com a opinião geral, constatada, aliás, por mim, penso que em nenhum país os artífices sejam tão preguiçosos e tão pouco exatos no cumprimento de seus tratos e no desempenho dos mesmos com honestidade, como em São Paulo. Não tinham eles, contudo, para desculpa, um esforço excessivo, mas suas necessidades, como já assinalei, eram de pouca monta, pelo que poderiam satisfazê-las muito facilmente uma vez que os víveres e os  aluguéis eram muito módicos. ... Quando um trabalhador ganhava algumas patacas repousava até que essa importância  fosse   consumida. ...Perguntei a uma pessoa de destaque estabelecida em São Paulo, como agia quando tinha necessidade de um par de sapatos.  “Eu os encomendo”, respondeu-me "a vários sapateiros ao mesmo tempo e entre eles encontro, de ordinário, um que, premido pela falta de dinheiro, resigna-se a cumprir a incumbência.”  poder de que é revestido, os oficiais de Guerra Nacional, o próprio ouvidor, não obstante todo poder  de que é revestido, nada podiam conseguir contra essa extraordinária apatia13

 

A explicação da decantada preguiça brasileira, todos a tinham na ponta da língua: a escravidão. É que o negro cativo fazia tudo dentro de casa e, fora,   ainda proporcionava bom rendimento a seu dono, o qual recebia dele uma féria diária ou semanal, proveniente do que vendesse ou do aluguel dos seus trabalhos. Eram os “negros de ganho” e adiante veremos como operavam. De resto isso constituía motivo de consideração social: quanto maior o número de escravos tanto mais ascendia o prestígio de quem os possuísse. O fato, observado por viajantes no século XIX, vinha da época colonial e confirma-o José da Silva Lisboa no último quartel do século XVIII: “É prova de mendicidade extrema o não ter um escravo;  ter-se-ão todos os incômodos, mas um escravo.” 14

Até o modesto professor de grego Luiz dos Santos Vilhena, pela mesma época, possuía 8 escravos (três homens, duas mulheres e três filhos destes), que certamente suplementaram sua aposentadoria e deram segura sobrevivência à sua viúva.15

Por isso Tollenare afirmava em 1817, convicto, que “ O Brasil oferece o que a Europa recusa geralmente, quero dizer, a possibilidade de viver ocioso” ,16 porquanto “com alguns negros, um pouco de horticultura, criação de aves e de gado, encontra-se no mercado da cidade compradores por preços que podem satisfazer a votos modestos e sólidos”.17 Os negros,  afinal, seriam aqui indispensáveis a qualquer empreendimento, pelo visto ao próprio existir da população branca, e daí Ferdinand Denis, contemporâneo de Tollenare, aventurar a explicação, aliás compartilhada em geral pelos europeus, de que “uma certa indolência crioula” aparece regularmente “em toda parte em que há senhores e escravos".18

Claro que a explicação procedia mas não deixava de ser superficial  ou incompleta, baseada somente na aparência imediata. Os escravos decerto sustentavam os senhores, que assim podiam dedicar-se ao prazer permanente de administrar seu ócio. Mas porque essa gente se contentava com o sustento proporcionado pela escravaria? A resposta é simples: não havia, na verdade, qualquer interesse em modificar tal situação. Quase toda a população livre aceitava, como coisa inevitável, o não ser diretamente produtiva com as exceções óbvias dos senhores de engenho, plantadores, criadores e mineradores. O resto , a maioria, pascentava, sem função muito definida, numa  organização social baseada em grande medida nas atividades econômicas voltadas para a exportação que interessasse à Metrópole. As  manufaturas limitavam-se ao mínimo. Indústria nem pensar. A população urbana brasileira só restava acomodar-se e transformar o ócio a preguiça, em virtude, em coisa prestigiosa  naturalmente almejada por todos.

Condescendentes, os estrangeiros todavia não se conformavam com o que viam. Em 1817, Tollenare fez questão de anotar em seu diário: "Um mestre de obras, um marceneiro, um carpinteiro, um ferreiro , um pedreiro, um mestre, enfim de qualquer destas profissões,  em lugar de assalariar operários livres, compra negros e os instrui" E acrescentou: "lamenta-se que este afastamento de homens livres de todas as ocupações industriais extinga o germe do trabalho... e que  mantenha a indolência de que são acusados os brasileiros"19. Uns 12 anos mais tarde Walsh também arriscava justificar : "se eles são indolentes e isso se deve até agora a falta de um estímulo adequado e aos nocivos e deprimentes efeitos causados pelo fato de disporem de escravos para fazerem todo seu trabalho e suprirem todas as suas necessidades""20. Entretanto, a um morador da Colônia, Luís dos Santos Vilhena, não escaparam nem  a causa mais profunda (reduzido número de atividades produtivas) nem o resultado nefasto (a miséria da população)  suscitados por tal estado de coisas. Ele, pelo menos, quase acertou no alvo:

 

Todo o mais povo, à exceção dos comerciantes e alguns lavradores aparatosos, é uma congregação de pobres, pois que além de serem muito poucas as artes mecânicas e fábricas em que possam empre­gar-se, nelas o não fazem pelo ócio que professam e a conseqüência que daqui pode tirar-se é que infalivelmente hão de ser pobríssimos. A arte geral que lhes é permitida, qual a agricultura, eles a aborre­cem, pela persuasão de que é trabalho próprio só de negros, e por esta causa familiarizados com fome; preguiça inata, poucas artes mecânicas, abandono e ódio à agricultura, são os condutores daque­les miseráveis à indigência.21

 

A vida relativamente folgada desfrutada por urna parte da população devia ter um sentido, pois que a colônia brasileira, imensa, generosa sobretudo em suas remessas de açúcar e de minérios, constituía o lastro principal das relações mercantis do Reino com seus parceiros comer­ciais. A produção regular, contínua e, ao que se exigia, crescente, era a outra face daquela situação de ócio induzido. Acontecia, assim, que a solicitação de trabalho duro e valorizado do outro lado do Atlântico se dirigia ao senhor de engenho, a seus parceiros lavradores e ao minerador, enquanto a massa urbana era mais ou menos desconsiderada pela Metró­pole porque se situava à margem da grande produção.

Ora, nos centros urbanos, mesmo no interior, havia sempre grande número de pessoas não envolvido diretamente na produção agro-industrial ou mineradora, mas cuja atividade era vital para a sobrevivência dos citadinos em seu ócio e entre os citadinos eles mesmos se incluíam, não raro pelo mesmo estilo ocioso de vida. Eram os oficiais mecânicos, alguns, como vimos, ridicularizados por Luccock e odiados por Saint­-Hilaire (carpinteiros, cutileiros, alfaiates, sapateiros, ferreiros...); os burocratas -  oficiais maiores ou menores- sustentados pelo Estado, pagos por todo mundo e igualmente odiados por todos; os pequenos comerciantes (estalajadeiros, padeiros, taberneiros, açougueiros...); os que exerciam ofícios menores (costureiras, barbeiros, parteiras, cria­dos...) e os liberais, não raro a serviço do Estado (advogados, médicos, professores, músicos...).

Toda essa gente —  e seus escravos, vale sempre lembrar — fazia a cidade pulsar, aparentemente competindo com as verdadeiras autarquias constituídas por fazendas e engenhos, onde quase todas as funções mecânicas se exerciam sem o concurso dos citadinos. Ora, quase todas as funções não são todas as funções, e por isso a população dos engenhos, teoricamente auto-suficiente, recorria à cidade com freqüência. Na cida­de, com efeito, sediavam-se as administrações civil e eclesiástica, e lá também estavam os comerciantes e, a ser o caso, o porto. A ligação direta entre Colônia e Metrópole dava-se pela cidade, e assim o modelo de divertir-se, de comer, de vestir etc, aparecia primeiro nos centros urba­nos. E aqui, como que para compensar ‘o viver em Colônia’, longe da Corte, exorbitava-se nos hábitos gerados pelo ócio, a começar pela aquisição de escravos, o que, num círculo vicioso, proporcionava o tempo livre ostentado como sinal de prestígio naquela sociedade produ­tora e consumidora de serviços.

O padrão ideal de status, portanto, era esse: possuir cativos que dispensassem o dono de certos trabalhos ou, melhor ainda, de todo trabalho. A lei assim o permitia, e Perdigão Malheiros, em célebre obra sobre a jurisprudência relativa à escravidão, publicada em 1866-67, consignava a possibilidade, por parte do cativo, “de ajustar com o próprio senhor, pelo qual fosse o escravo a dar-lhe um certo jornal; o excesso seria do escravo” ,22 Este podia, assim, ‘aumentar o seu pecúlio ou naturalmente ou industrialmente”23 e, por esse meio, conseguir com­prar sua alforria.24 Era o que bastava, pois a vida realmente útil do escravo, no mais das vezes, estaria a serviço do senhor.

Alguns escravos, decerto com enorme esforço e persistência, alcan­çaram o objetivo maior de comprar sua própria pessoa e incorporar-se à população dos livres por nascimento. Atingido esse patamar, o ex-escra­vo obviamente investida (se conseguisse) no ofício ou trabalho que aprendera quando cativo, e logo trataria, ele também, de obter.., escra­vos! Reproduzia, assim, o padrão vigente, e decerto com maior razão e afinco, pois teria de se afirmar socialmente em meio hostil. Mostrar-se ocioso em virtude da posse de escravos seria um primeiro passo para obter reconhecimento (não necessariamente aceitação) no mundo arro­gante dos brancos. De qualquer modo, não recebia ordens, mas dava as ordens, e isso era bem-visto no microcosmo colonial. Mahommah G. Baquaqua, um africano que fora escravo no Brasil antes de chegar aos Estados Unidos, onde publicou sua história, disse quase ter sido compra­do por um liberto no Rio de Janeiro. “A posse de escravos , escreveu,

 

é gerada pelo poder, e qualquer um, tendo condições de comprar seu semelhante Com reles sobras de economia, pode tornar-se um proprietário de escravo, não importando sua cor, credo ou nacionalida­de, e .. .o homem de cor, tão logo tenha algum poder, escraviza seu companheiro como se fosse um branco.25

 

Robert Walsh, no final da década de 1820, encontrou situação similar quando viajava do Rio de Janeiro para Minas Gerais:

 

Dali seguimos para Venda Nova, uma pousada recém-construída na estrada principal, por onde seguíamos agora.... Resolvemos esperar um pouco . . .e pedimos um café... .Em seguida apareceu uma velha negra liberta, acompanhada de uma jovem escrava de sua própria raça, com uma trouxa na cabeça. A velha era muito falante, e quando soube que éramos ingleses pôs-se a enumerar com volubilidade os nomes de todos os ingleses que havia conhecido no Rio, parecendo muito orgulhosa do grande número de suas relações. Sua jovem escrava era seu único bem, e ela a alugava como besta de carga a quem quer que fosse e para qualquer fim, o que lhe dava um bom meio de vida. Muitas pessoas nas redondezas do Rio, tanto brancas quanto negras, vivem dessa maneira. Possuem um único escravo, que pela manhã sai em busca de trabalho e à noite retoma com uma pataca. Os próprios donos não fazem nada, passando os dias na indolência e vivendo dessa renda.26

 

A inglesa Maria Graham, ao passar por Recife em 1821, observou como os negros livres esforçavam-se por assimilar e imitar os costumes predominantes entre os brancos. Segundo pôde ver,

 

um negro livre, quando sua loja, ou seu quintal corresponde ao seu esforço, vestindo-o e a sua mulher com um belo fato preto, um colar e pulseiras para a senhora, e fivelas nos joelhos e sapatos para adornar as meias de seda, raramente se esforça muito mais, e contenta-se com sua alimentação diária.

Tal situação reproduzia decerto o padrão que vinha da época colonial, assim como o fato de que muitos, como sublinhou essa autora, “quando conseguem comprar um negro, descansam, dispensando-se de demais cuidados. Fazem com que o negro trabalhe para eles, ou esmole por eles, e assim, desde que possam comer seu pão tranqüilamente, pouco se importam em saber como foi obtido.”27

Em Minas Gerais, na comarca de Serro do Frio, havia em 1738 exatos 1.744 senhores de escravos, dos quais 387 eram ex-cativos (nada menos de 22,19% do total) que possuíam 783 negros de um total de 7.937 (9,86%).28 Semelhante proporção verificava-se também em Congonhas do Sabará, em 1771, onde se vê que dos 235 senhores, 51 eram forros (21,70% do total), proprietários de 134 cativos, de um total de 1.350 (9,92% da escravaria).29

Em Vila Rica, no fim do período colonial (1804), essa proporção diminuiu: dos 757 donos de escravos, apenas 48 eram forros (6,34% do total) — muitos ainda chamados de “crioulos”, isto é, o cativo que nasceu em casa do senhor —, os quais possuíam 98 negros de um total de 2.839 (3,45% da escravaria).30 Nessa cidade, dos 48 libertos proprie­tários de escravos, 33 eram mulheres (68,75%) contra só 15 homens (31,25%); 24 deles não declararam a atividade ou profissão, porém entre os demais figuram seis que diziam viver "de sua venda”, quatro faiscadores, dois capineiros, dois sapateiros e outros aparecem como alfaiate, mestre barbeiro, padeira, quitandeira, ferreiro e ferrador, mestre seleiro, caixeiro, sacristão, minerador e finalmente um que vivia de sua roça.

A relação censitária de Vila Rica às vezes indica como esses libertos ocupavam seus escravos. Narcisa Maria, uma preta-mina com 78 anos de idade, possuia dez escravos: três homens aprendiam ofício, duas mulheres serviam a casa, um homem e uma mulher eram jornaleiros (escravos de ganho) e três meninas deviam ser filhas desses adultos.31 Já a “crioula forra” Rosa Maria Gumes, de 55 anos, tinha cinco escravos, “todos ocupados em casa”32 A maioria (28 libertos) era proprietária de apenas um escravo, quando muito dois (dez libertos), sendo rara a posse de três (dois libertos), quatro (quatro libertos) e acima disso só quatro libertos, cada um respectivamente com cinco, seis, oito e dez cativos. Normalmente o liberto que possuía um ou dois escravos utilizava-os para completar o orçamento doméstico, corno a preta forra” Felizarda Gon­çalves, de 55 anos, cujo escravo era faiscador,33 ou a preta-mina forra” Maria Gonçalves, de cinqüenta anos, ela própria padeira, mas dona de uma escrava quitandeira.34

O mais esdrúxulo era a existência de indivíduos sob pleno cativeiro como proprietários de escravos. Tal situação, na realidade, criou-se pela possibilidade de o escravo poder comprar sua alforria, tal como já vimos. Ora, isso era contraditório, pois o escravizado não tinha legalmente personalidade civil, e assim lhe era vedado figurar como testemunha,35 fazer testamento,36 herdar,37ser tutor38 e assim por diante. Assim, ele jamais poderia adquirir nada para si, vale dizer, tudo o que possuísse era do senhor. No entanto, costumeiramente abriu-se a exceção, atrás aludida, de o escravo capacitar-se a amealhar pecúlio suficiente para comprar sua liberdade, aceitando-se, assim, o fato (e o "direito") de ter seu dinheiro.

E foi nesse espírito que os senhores passaram a aceitar que o próprio escravo comprasse outro para auxiliá-lo a juntar dinheiro ou simples­mente para ser dado em troca, corno reposição. Stuart B. Schwartz calculou que num lote de 613 alforrias da primeira metade do século

XVIII   na Bahia, pelo menos 18 (2,93%) mostram essa forma de paga­mento".39 Tal situação reconhecia-se até em testamento, como fez Eufrásia do Nascimento de Jesus, em 1751, ao separar de sua escravaria um garoto “do gentio de Guiné” chamado Salvador, cativo de seu escravo Simão, o qual ainda lhe devia as despesas da viagem e as taxas alfandegárias; reconhecia-se, assim, a propriedade de fato ao escravo Simão, mas não a de direito.40 Devido a essa incapacidade jurídica, um escravo só podia comprar outro por meio de intermediários, embora na qualidade de dono usufruísse à vontade de seu trabalho. Assim procedera Luciana Maria da Conceição, escrava do engenho Caípe, no Recôncavo baiano, a qual, após assim adquirir uma escrava nagô chamada Jerônima, a utilizou como `negra de ganho’ na cidade mais próxima.41

Em caso de pendência judicial, entretanto, dificilmente se reconhecia aquela propriedade de fato, valendo a de direito, desfrutada pelo senhor de ambos, O liberto Estêvão de Jesus, por exemplo, queria em 1815, no Rio de Janeiro, que seu antigo senhor lhe devolvesse a quantia, embolsada por este, ganha por um escravo que ele possuía quando cativo, além do valor do tal escravo. O proprietário branco alegou que ‘dispôs dele como coisa sua e o vendera,... reconhecendo a bem sabida regra de que o escravo nada tem que não seja do senhor`, opinião compartilhada pelo intendente da polícia, Paulo Fernandes Viana, ao despachar o processo com a avaliação de “que o senhor podia fazer seu o escravo que o suplicante tinha trazido, .uma vez que não lhe tinha dado nenhum daqueles pecúlios com que os escravos lidam e granjeiam alguma coisa para si. Quando não há essa concessão, tudo quanto eles têm é de seus senhores.”42 Também no Rio de Janeiro, em 1823, a negra Maria Joaquina queixava-se de sua senhora, a qual não só lhe negou a liberdade após receber dela uma escrava mais nova em troca de si própria, como a castigou cruelmente e vendeu-a para outrem.43 No ano seguinte, o escravo João, ferreiro, apelava ao imperador porque seu senhor não queria libertá-lo nem a seu escravo, que ele comprara e adestrara como ferreiro para ganhar a alforria.44

Todos, como vemos, queriam escravos, e daí o comentário desde­nhoso de um viajante, ao aportar em Salvador em 1714, de que

 

as ruas enchem-se apenas de figuras hediondas de negros e negras escravos, que a indolência e a avareza, muito mais que a necessida­de, transplantaram das costas da África para servir à magnificência dos ricos e contribuir para o ócio dos pobres, que para eles transfe­rem seu trabalho.45

 

Façamos, porém, algumas distinções. O escravo urbano, com e feito, envolvia-se em três grandes atividades básicas: aprendia algum artesa­nato ou adestrava-se em qualquer ofício, dispensando o senhor do exer­cício direto da produção; trabalhava nas ruas para auferir o sustento do dono, quer vendendo pequenas mercadorias, quer alugando seu serviço; e dedicava-se exclusivamente às necessidades domésticas do proprietário. Vejamos essas atividades em separado.

 

 

 

Já assinalei o quão era tido por vergonhoso, mesmo no correr do século XIX, o exercer determinadas profissões `mecânicas’ e até o carregar pelas ruas qualquer coisa com as próprias mãos. Ora, isso constituía, em última análise, o efeito visível de uma sociedade de escassa mobilidade, de subordinações praticamente irremovíveis, de papéis bem marcados, e isso do nível familiar ao profissional. Assim, a ostentação, cuidadosamente praticada, de opulência ou só de bem-estar devia ser perseguida com tenacidade por quem não quisesse passar por pobre ou miserável e, na dura dinâmica colonial, sujeitar-se a um número ainda maior de restrições imposto em sua vida pública, fosse qual fosse a profissão exercida. E o ócio, ou a demonstração social do ócio, era o mais importante signo de abastança, ou de conforto, ou de `vida digna’ de quantos pudessem ter escravos para mostrar poder, para dispor de maior tempo livre em seu trabalho ou simplesmente para sustentar-se. A posse de escravos seria, portanto, imprescindível para que se pudesse alardear um altivo desprezo pelo trabalho.

Thomas Ewbank, que esteve no Rio de Janeiro em 1846, afirmava que “a tendência inevitável da escravidão por toda parte é tomar o trabalho desonroso, resultado superlativamente mau, pois inverte a or­dem natural e destrói a harmonia da civilização. No Brasil predomina a escravidão negra e os brasileiros recuam com algo semelhante ao horror diante dos serviços manuais” .46 Os oficiais mecânicos, portanto, dispen­savam-se sem cerimônia do trabalho pesado, e por isso mesmo Ewhank ainda escrevia: “Já vi escravos trabalhando como carpinteiros, pedrei­ros, calceteiros, impressores, pintores de cartazes e ornamentos, fabri­cantes de carruagens e escrivaninhas e litógrafos."47 Antecipando-se em  25 anos às críticas de Ewhank, o brasileiro João Severiano Maciel da Costa já vergastava o sistema escravista, obviamente inspirado no libera­lismo ilustrado. Ele se propôs a “examinar se a nossa indústria pode prosperar quanto convém em mãos de escravos” .48A negativa era evidente:

 

A razão e a experiência conspiram a provar que a devemos confiar a braços livres porque nenhum grande aperfeiçoamento se pode esperar de homens que, trabalhando para seus senhores, forçados, descontentes e sem emulação, procuram unicamente fazer quanto baste para evitar o castigo e com o menor incômodo pessoal possí­vel. ...O pior de tudo é que o trabalho industrial, relegado à classe dos escravos, se aviltará aos olhos da multidão, e por isso a classe livre o detestará, como acontece já entre nós com o trabalho agrí­cola, que na opinião geral é só para escravos. . . .E que esperança podemos ter de que prospere a indústria em um pais onde o trabalho, alma dela e de toda a riqueza, é infamante e indecoroso?49

 

No mesmo ano de 1821 em que se publicava o trabalho de João Severiano, a inglesa Maria Graham observava no Recife que

 

muitos portugueses no Brasil não têm outra ocupação: aplicam uma soma de dinheiro em escravos; estes escravos saem todos os dias e devem trazer uma certa soma cada noite. São canoeiros, carregadores de cadeirinhas, carregadores e tecedores de esteiras e chapéus, que se podem alugar nas ruas e mercados, e que assim sustentam seus senhores.50

 

Ora, cerca de 120 anos antes, em pleno regime colonial, o quadro era exatamente o mesmo, tanto que Dampier, ao passar por Salvador em 1699, também registrava que

 

afora mercadores que negociam aqui pelo mar, vêem-se outras pessoas bastante ricas e grande número de artesãos de quase todas as espécies, que por seu trabalho e indústria vivem muito á vontade, sobretudo os que logram comprar um ou dois escravos negros. Com exceção dos mais miseráveis do populacho, quase não há ninguém que não tenha escravos em sua casa. ...Os principais artesãos daqui são ferreiros, chapeleiros, sapateiros, curtidores, marceneiros, car­pinteiros, tanoeiros, alfaiates ...... .Todos esses artesãos compram negros, aos quais ensinam seus diferentes ofícios e que lhes são de grande valia.51

 

Devia ser freqüente um mesmo escravo ser perito em dois, três ou mais ofícios. Vendas sucessivas obrigavam-no decerto a aprender novo ofício com o novo dono, o que, naturalmente, valorizava seu preço. Nos anúncios de fuga de escravos em jornais do século XIX evidenciava-se esse fato. Assim, podia ser “professor chapeleiro mas sabe coser em máquina de costura, tendo trabalhado com máquina a vapor, no que é prático” 52, enquanto de outro se dizia que era bom carpinteiro e pedrei­ro” ,53 e não se estranhasse se outro ainda fosse “oficial de pedreiro e barbeiro” .54 De um moçambicano asseverava-se que “tem servido em diferentes artes, pescador, canoeiro, caiador, trabalhador de campo e hoje é padeiro”.55 Ás vezes o mesmo indivíduo tinha habilidades casei­ras e exercitava algum oficio, como certo “pajem de serviço doméstico acostumado a lidar com animais, copeiro, entende do ofício de carpin­teiro, sabe lidar com máquinas de corte, lê números e faz conta de memória, sabe música, canta e toca flauta e violão”.56 Ou então seria “cozinheiro e caiador”, “boleeiro ...e com princípios de alfaiate”57 e assim por diante. Dampier viu bem: esses escravos eram, de fato, “de grande valia” para seus senhores.

 

 

 

Mas havia outras formas de emprego de escravo urbano. Em 1807 o desembargador João Rodrigues de Brito, em Salvador, dizia convicta­mente que um dos motivos da ociosidade geral era a “opinião que inspira nos moradores o gosto de possuírem escravos de mero luxo” .58 Esses cativos, com certeza, constituíam o vasto contingente de domésticos que davam prestígio a quem os pudesse expor corno criados ou lacaios. Já em 1705 o jesuíta Jorge Benci criticava tal situação, que vinha, fortemente consolidada, do século XVII, a qual ele resumia assim: ‘Se os escravos e escravas não hão de servir ao menos para ajudar a seus senhores a sustentar a vida, não sei para que se compram com tão grande gasto! Só para sustentar o fausto e vaidade, e para que haja muitos a quem mandar?`59 Um século depois, todavia, Vilhena dizia que muitas famílias abrigavam sessenta a setenta escravos "e mais pessoas desnecessárias” pelo prazer da ostentação.60

Dentro de casa faziam de tudo: cozinhavam, lavavam, serviam à mesa, limpavam chão e móveis, atuavam como mensageiros; as mulhe­res fiavam, costuravam e eram amas-de-leite e babás; os homens execu­tavam pequenos consertos, limpavam o quintal, jogavam lixo e fezes nos locais apropriados e assim por diante. Mas acima de tudo satisfaziam a vaidade do dono, sua arrogante indolência exibida sem pudor. O inglês John Luccock, em 1808, sentiu-se constrangido com tal situação, por ele presenciada. Ao discorrer sobre as mulheres do Rio de Janeiro, escreveu, com efeito, que

 

o       exercício físico que essas damas fazem se reduz ao caseiro; esforço requerido é diminuto, e esse mesmo, contrariado por inclinação natural; vivendo cercada de escravos, possuem o privilégio de ser servidas. Isso eu vi levado a um extremo tal que seria ridículo se não fosse algo de pior, e lamento ter que acrescentar que semelhantes espetáculos não são nada raros. Achava-se uma dama sentada sobre uma esteira (numa manhã em que a fui visitar), cercada de muitas escravas ocupadas em trabalhos de agulha; junto dela ao alcance de sua mão estava pousado um canjirão d’água. Em certo momento, interrompeu a conversa para gritar por uma outra escrava que estava em local diferente de casa. Quando a negra entrou quarto, a senhora lhe disse: Dê-me o canjirão.” Assim o fez sua senhora bebeu e devolveu-lho; a escrava recolocou o vaso onde estava e retirou-se sem que parecesse ter dado pela estranheza da ordem, estando talvez a repetir o que já fizera milhares de vezes antes. Ah!, minhas senhoras, pensei eu, não há maravilhar que se tornem corpulentas e se estraguem; são esses os efeitos naturais da ociosidade.61

 

O artista Jean Baptiste Debret retratou mais ou menos essa cena da senhora cercada de escravas em seus aposentos, sem faltar "um moleque com um enorme copo d’água” a ela destinado. 62 Nem sempre, contudo, o trabalho dos escravos resumia-se a dar água a seus senhores. As donas de casa, em particular, esmeravam-se em providenciar tarefas árduas para seus cativos, tratando-os com dureza e até crueldade. Em 1820 Saint-Hilaire apiedou-se, no Rio Grande do Sul, da situação de um menino escravo, situação essa que em qualquer outro ponto do Brasil tampouco se estranharia um ou dois séculos antes:

 

Há sempre na sala um pequeno negro de dez a 12 anos, cuja função é ir chamar os outros escravos, servir água e prestar pequenos serviços caseiros. Não conheço criatura mais infeliz que essa crian­ça. Nunca se assenta, jamais sorri, em tempo algum brinca! Passa a vida tristemente encostada à parede e é freqüentemente maltratada pelos filhos do dono. A noite chega-lhe o sono e, quando não há ninguém na sala, cai de joelhos para poder dormir. Não é esta casa a única que usa esse impiedoso sistema: ele é freqüente em outras.63

 

Noutro extremo, alguns escravos domésticos podiam gozar de rega­lias vedadas aos demais da mesma residência. As amas-de-leite, por exemplo, decerto estavam nesse caso, ou, ainda, os protegidos, por qualquer motivo, dos senhores. La Barbinais, na segunda década do século XVIII, comprova o uso generalizado de amas-de-leite escravas. “Os portugueses nascidos no Brasil”, constatava admirado, preferem a posse de uma negra ou mulata à mais bela mulher [branca]. Perguntei-lhes donde procedia um gosto tão bizarro, mas eles próprios o ignoram. Para mim, acredito que, criados e amamentados por essas escravas, adquirem essas inclinações com o leite"64 A explicação é digna de Heródoto, mas atesta a incorporação dessas escravas à intimidade da família branca, cuidando da amamentação e da primeira educação das crianças. Muitos anúncios de aluguel de amas-de-leite em jornais do século XIX, quando o hábito se exacerbou, parecem confirmar o fato ao qualificarem as escravas como hábeis no trato infantil:

 

"muito carinhosa para crianças”, sabe coser e tratar bem das crianças”, "mui carinhosa, sabendo coser perfeitamente e tratar de crianças com todo o melindre e desvelo”, “é muito carinhosa para crianças" .65

As escravas que mantinham relações sexuais com o dono deviam ter alguma ascendência sobre os outros cativos da casa; esta posição, de resto, criava às vezes situações embaraçosas. La Barbinais narrou um desses casos: "Conheci uma senhora muito amável de Lisboa, que casara com um homem deste país no Brasil; a discórdia reinava no lar, e o esposo desprezava sua esposa pelo amor de uma negra que não teria merecido a atenção do negro mais feio de toda a Guiné.” 66Pouco antes, em 1699, Dampier dizia que

 

muitos portugueses solteiros [em Salvador] mantêm essas mulheres negras como suas amantes, embora saibam o perigo que correm de ser envenenados caso lhes dêem algum motivo de ciúme. Um homem de minhas relações, que se tomara demasiado íntimo de sua cozinheira, estava com medo de algo no gênero quando eu lá me encontrava.67

Tudo isso acontecia dentro de casa. Nas ruas, o escravo devia ser exibido como símbolo de poder ou de riqueza do senhor. Assim, fazer-se acompanhar pelo maior número possível de negros bem nutridos e sobretudo bem vestidos era o sinal maior de abastança e prestígio social. A ostentação podia chegar a tal ponto que em 1764 o arcebispo dom Manuel de Santa Inês dirigiu carta pastoral às freiras do convento de Santa Clara do Desterro, em Salvador, contra o costume de elas se mostrarem pelas ruas luxuosamente vestidas, cobertas de jóias, seguidas de escravas trajadas com igual afetação. Dizia ele que

 

as pretas que servem as religiosas de portas afora são trombetas que publicam estas mesmas faltas, pois introduzindo as suas senhoras dentro da portaria do convento, sem temor de Deus as vestem e ornam de modo que são escândalo deste povo, o qual também se escandaliza vendo que para entrar uma serva nesta clausura, procura a religiosa, sua senhora, que primeiro passeie cm cadeira pelas ruas da cidade alguns dias, bem vestida e composta, para que os moradores dela saibam que aquela escrava vai servir à madre fulana, e assim mesmo vendo que a mesma senhora manda alcatifar a portaria e convida as religiosas para se receber para dentro a tal serva com toda a gravidade, sob pena que, assim a senhora corno a serva que o sobredito cerimonial não observam, serão reputadas por gente de inferior esfera.68

 

A Metrópole, pelo menos no final do século XVIII, tampouco via com bons olhos tamanha ostentação dos colonos, pois em 1799 0 príncipe regente autorizava uma capitação sobre todos os escravos de luxo das cidades que não servem à agricultura, o que também pode ser considerado um meio político de refrear tão nocivo luxo e de promover a agricultura”.69 Nessa mesma época Vilhena censurava as mulheres que, quando a função permitia, se apresentavam

 

com as suas mulatas e pretas vestidas com ricas saias de cetim, becas de lemiste finíssimo e camisas de cambraia ou cassa, bordadas de forma tal que vale o lavor três ou quatro veres mais que a peça; e tanto é o ouro que cada urna leva em fivelas, pulseiras, colares ou braceletes e bentinhos que, sem hipérbole, basta para comprar duas ou três negras ou mulatas como a que o leva: e tal conheço eu que nenhuma dúvida se lhe oferece cru sair com 15 ou vinte assim ornadas. Para verem as procissões é que de ordinário saem acom­panhadas de uma tal comitiva.70

 

Outro sinal prestigioso era o fazer-se transportar por escravos. Até meados do século XVIII predominou a rede (também chamada de serpentina’ e às vezes de palanquim’). Segundo anotou Froger em 1696, era coberta por pequeno dossel bordado, carregada por dois negros por meio de longa vara, a qual é suspensa pelas duas extremida­des; as pessoas importantes assim fazem-se transportar para a igreja, para suas visitas e até para o campo”.71 Três anos depois, em 1699, o inglês William Dampier seria mais prolixo:

 

Além de escravos de ambos os sexos que os mais ricos mantêm para toda espécie de trabalhos servis, têm ainda outros para ostentação, que lhes servem para correr ao lado de seus cavalos, quando vão ao campo, ou para transportá-los na cidade, quando vão fazer visita próximo de casa. Os gentis-homens e os comerciantes provêem-se de todo o necessário para tal espécie de hidra; o principal é uma enorme rede de algodão à moda das Índias Ocidentais, mas em geral tingida de azul, com longas franjas do mesmo tecido caindo dos dois lados. Os negros carregam-na nos ombros com o auxílio de uma vara de 13 ou 14 pés de comprimento, pela qual se suspende a rede. A vara é coberta por um tapete que serve de cortina, e assim não se consegue ver a pessoa conduzida, a menos que ela queira mostrar-se. Pode estender-se ao comprido e repousar a cabeça em almofadas que existem para isso, ou até sentar-se e deixar pender as pernas de cada lado da rede. Quando a pessoa está de humor para ser vista, levanta a cortina e saúda todos os amigos que encontra pelo caminho: têm uma grande vaidade de saudar-se uns aos outros de suas redes; às vezes se detêm nas ruas, onde travam longas conversa, mas ai os dois condutores, que dispõem cada um de um sólido bastão bem polido, no alto do qual há uma forquilha de ferro e embaixo uma ponta, fincam-nos no chão e neles apoiam as suas extremidades da vara que suspende a rede até que seus senhores tenham acabado a conversa. Quase não há ninguém de qualquer categoria, sobretudo nenhuma mulher, que saia à rua sem se fazer levar assim numa rede.72

 

No segundo decênio do século XVII Ambrósio Femandes Brandão achava a rede “excelente para se andar nela por caminhos”, acrescen­tando que as pessoas assim transportadas costumam “levar consigo, para seu acompanhamento, além dos homens que levam de pé ou de cavalo, duas ou três escravas do gentio de Guiné ou do da terra, que se não desviam de ir sempre ao redor da rede, a que acomoda uma alcatifa por baixo".73 Preferia-se, ao que parece, deixar de comparecer a qualquer lugar a fazê-lo a pé, sem esse transporte. Gregório de Matos, pelo menos, apontava que "quis ir à festa da Cruz / Inácia e faltou-lhe a rede, / com que foi força ficar/ paredes sobre paredes” .74E o poeta não deixou passar a oportunidade de galhofar de certa mulher cuja rede havia despencado da vara ao quebrar-se a corda de sustentação; mesmo assim, anotava que “ela não se arreda / de andar sem rede porque / quer antes, como se vê, / haver da rede caído / para ter um pé torcido,/ que ser sã e andar a pé”. 75 O padre Antônio Vieira, em 1652, dizia que

 

os da Europa andam em liteiras e carroças; os da Ásia em palan­quins; os da América em serpentinas: e estas duas invenções são para ir mais fácil e mais descansadamente ao Inferno. Os da Europa vão assentados; os da Ásia e da América deitados e jazendo; os da Europa tirados por animais; os da Ásia e da América levados em ombros de homens: e estes são os que carregados dos seus cativei­ros, violências e opressões, os levam mais fácil e merecidamente ao Inferno, para onde caminham.76

 

Por meados do século XVIII a rede cedeu lugar à cadeira ou cadeirinha, bem mais aparatosa, a qual, segundo calculava Vilhena, “não importa em menos de duzentos ou trezentos mil-réis, e a parelha de negros que a conduzem nada menos de trezentos mil-réis, levando muitas vezes outra ou outras iguais parelhas para fazerem mudas”.77O inglês John Luccock, no Rio de Janeiro, escreveu que essas cadeiras

 

consistem numa poltrona de encosto alto, com um repouso para os pés e um baldaquim; neste último acham-se pregadas cortinas de pano azul, orladas com uma cor alegre e mantidas cerradas enquanto a máquina passa pela rua, a fim de esconder do público a altiva ou aperreada dona. Isso tudo vai suspenso a um longo pau, entre dois pretos que o sustentam nos ombros.

E arremata que esses veículos eram "por vezes muito luxuosos, com decorações tais que pudessem revelar o bom gosto, a fortuna e a condição do proprietário".78 Outro inglês, Thomas Lindley, deixou curiosa descrição; segundo ele, em Salvador

 

as cadeirinhas são proporcionalmente abundantes, podendo ser conseguidas em qualquer rua. Não são como as nossas, porém muito mais altas e abertas dos lados, de cima abaixo, de tal maneira que uma pessoa senta-se logo que sobe numa delas. São carregadas nos ombros de dois negros robustos, por meio de duas varas de madeira que se estendem da parte superior da cadeirinha para trás e para frente. Na coberta enfeitam-na profusamente de entalhes e doura­dos, e daí pendem escuras cortinas de seda ou lã, estampadas com vários padrões de folheado a ouro e prata.

A riqueza dessas cadeirinhas e a vistosa libré dos carregadores são pontos nos quais a classe alta brasileira se esforça por primar, chegando por vezes, nesse item, ao mais extremo ridículo. Certa vez observei no Rio de Janeiro uma cadeirinha totalmente abar­rotada de cupidos e outros entalhes emblemáticos, conduzida por dois pretos vigorosos trajados com uma casaca de seda azul-clara, pantalonas curtas e um saiote por cima (semelhante ao dos barquei­ros), tudo bastante sarapintado de um rosa-avermelhado. Essa roupa flamejante formava um contraste tão estranho com sua pele delicada, pois estavam sem meias nem sapatos, que aquilo parecia, no conjunto, o mais completo burlesco para equipagem que se pudesse imaginar79

 

Na França, em pleno século XVIII, já havia críticas a esse tipo de ostentação, e um autor anônimo, num livro intitulado Etat et description de la ville de Montpellier fait en 1768, argüía indignado que

 

a prática de se fazer carregar por outros homens é um grande abuso. Contradiz a natureza e nada parece mais ridículo do que ver um cônego, um bispo, um oficial do exército, um magistrado ou qual­quer almofadinha que quer fazer figura fechando-se numa caixa e se fazendo carregar nos ombros de outros homens.

 

Segundo ele. "este negócio impiedoso emprega uma quantidade prodi­giosa de camponeses das montanhas, que são robustos por natureza e, certamente, poderiam dar à sua força um fim mais útil cultivando a terra, em vez de carregar outros homens perfeitamente capazes de caminhar”.80 No Brasil, todavia, ninguém achava nada de errado com as cadeirinhas nas ruas, transportadas por escravos esfalfados mas impecavelmente vestidos para honra de seu senhor.

 

 

 

A maioria dos cativos nos centros urbanos, porém, não se compunha de artífices e domésticos, mas dos ditos negros de ganho. Já em 1610 Pyrard de Laval assinalava em Salvador não haver “português, por mais pobre que seja, homem ou mulher, que não possua seus dois ou três escravos que sustentam a vida de seu senhor, para quem deve trabalhar certo tempo todo dia, além de manter-se com seu ganho”.81 Muitas famílias pobres tinham seu rendimento complementado pelo trabalho desses escravos, quando não dependiam dele por inteiro. Trata-se, neste caso, da posse de um a três escravos, pois Tollenare observava, em 1817, que “um homem que possui, na cidade, uns vinte bons negros, pode viver muito à vontade”.82

Havia duas grandes espécies de trabalho para os negros de ganho: ou vendiam pequenas mercadorias, em geral comestíveis, ou tinham seu trabalho alugado como mão-de-obra de serviços pesados. Em ambos os casos, como já foi dito atrás, o escravo dava determinada quantia ao senhor, retendo pequena parcela (o restante do que pudesse ganhar) para sua subsistência e, se conseguisse, também para a poupança com a qual comprava sua própria pessoa, vale dizer, a liberdade.

Grande número de cativos dedicava-se, pelas ruas, ao comércio ambulante, vendendo produtos como refrescos, milho assado, capim seco para estofamentos, angu, coco, pão-de-ló carvão, cestos, aves, guloseimas (sobretudo bolos, doces e pastéis), frutas, leite etc.83 Davam um aspecto movimentado às cidades e no Rio de Janeiro, por exemplo, cedo surgiam os carregadores de água e de leite e as vendedoras de pão-de-ló (biscoitos para o café da manhã). De sete a oito horas encaminham-se calmamente para o centro da cidade os negros de ganho; uns preparam durante o caminho trançados de folhas de palmeira des­tinados à confecção de chapéus (comumente chamados de palha), enquanto outros, menos ativos, acertam sossegadamente o passo ao som da marimba (instrumento africano). Na mesma hora, isto é, de seis a oito, os mercados situados nas praias de desembarque e já abastecidos pelas embarcações chegadas de madrugada apresentam um movimento generalizado de quitandeiras (revendedoras de fru­tas e legumes), que se encontram durante o resto do dia pelas ruas ou nos mercados da cidade. As duas horas fecham-se a Alfândega e as demais repartições públicas, último movimento precursor da calma sensível que reina na cidade até as quatro horas da tarde, momento em que reaparecem nas ruas as vendedoras de pão-de-ló, as quais a essa hora passam a fornecer biscoitos para o chá, merenda servida às oito horas em todas as casas da cidade. No mesmo momento aparecem também as vendedoras de velas; outras vendem doces, sonhos etc.; estas últimas se dirigem ao largo do Palácio, onde se reúnem das quatro às sete os rentistas e os negociantes.

- De sete às dez ouve-se nas ruas o pregão das vendedoras de amendoim torrado, milho assado, pastéis quentes, pastéis de palmi­to, pudim quente, manuê etc., iguarias todas de grande consumo.84

 

Essa descrição de Debret data da terceira década do século XIX, mas não devia ser muito diferente na época colonial, quando as "negras de tabuleiro", como então eram chamadas, povoavam as ruas de pequenas e grandes cidades, no litoral ou nos ermos montanhosos das minas de ouro e diamantes, ao mesmo tempo requisitadas pela população e duramente reprimidas pelas autoridades. Vilhena descreve sua mercadoria, por finais do século XVIII, em Salvador:

 

Não deixa de ser digno de reparo o ver que das casas mais opulentas desta cidade, onde andam os contratos e negociações de maior porte, saem oito, dez e mais negros a vender pelas ruas, a pregão, as coisas mais insignificantes e vis, como sejam iguarias de diversas qualidades, v.g., mocotós (isto é, mãos de vaca), carurus, vatapás, mingau, pamonha, canjica (isto é, papa de milho), acaçá, acarajé, bobó, arroz-de-coco, feijão-de-coco, angu, pão-de-ló de arroz, o mesmo de milho, roletes de cana, queimados (isto é, rebuçados a oito por um vintém), e doces de infinitas qualidades, ótimos muitos deles, pelo seu asseio, para tomar por vomitório; e o que mais escandaliza é uma água suja feita com mel e certas misturas a que chamam o aluá, que faz vezes de limonada para os negros.85

 

O trabalho mais pesado ficava também a cargo de negros de ganho, mas neste caso eles nada tinham a ver com venda em tabuleiros e contavam apenas com sua força física alugada a outrem; assim, eram negros de ganho porque estavam obrigados a dar ao senhor determinada quantia daquilo que conseguissem auferir, e eram negros de aluguel porque sua atividade se limitava a determinadas tarefas cujo preço se ajustava previamente. Essas tarefas variavam. Em um só caso o escravo não dependia da força, mas da habilidade, e esta não faltava aos barbeiros ambulantes, os quais, segundo Debret,

 

compenetrados e sagazes, vagueiam desde manhã pelas praias nos pontos de desembarque, pelo cais, nas ruas e praças públicas, ou em torno das grandes oficinas, certos de encontrar clientes entre os negros de ganho... Alguns, entretanto, mais hábeis, dotados mesmo do gênio do desenho, distinguem-se pela variedade que sabem dar ao corte de cabelo dos negros de ganho, sobre a cabeça dos quais desenham divisões pitorescas, formadas por chumaços de cabelos cortados com a tesoura e separados uns dos outros por pedaços raspados a navalha e cujo colorido mais claro lhes traça o contorno de uma maneira nítida e harmoniosa.

Aparentemente vagabundos, são no entanto obrigados a se apresentar duas vezes por dia na casa de seus senhores, para as refeições e para entregar o resultado da féria.86

 

Nada de parecido se pretendia dos demais negros de aluguel. Deles esperava-se somente força e competência mínima para utilizá-la. Muitos dedicavam-se a conduzir cadeirinhas; afirmava Lindley que essas po­diam ser conseguidas facilmente em qualquer rua.87 O mais comum, todavia, era a utilização desses escravos no transporte de cargas, o que se fazia de duas maneiras: ou se amarravam os fardos em cordas, suspendendo-os a uma grande vara levada por dois a oito homens (e ai estes eram chamados de cargueiros ou carregadores de cangalhas), ou se acomodavam os fardos numa carreta puxada e empurrada por seis a 12 homens (eram os negros de carro)88 Volumes menos pesados podiam ser transportados na cabeça de um ou dois carregadores.89

A vida profissional dos negros carregadores oscilava de sete a dez anos, ao cabo dos quais se achavam absolutamente inutilizados, só lhes restando engrossar o contingente daqueles que só poderiam sobreviver à custa da caridade pública. Em 1828 Robert Walsh descreveu de forma pungente o tratamento dado a esses carregadores no Rio de Janeiro:

 

Todo o serviço de transporte de cargas era feito por eles, e o estado em que se apresentavam era revoltante para a humanidade. Havia ali vários seres quase inteiramente despidos, a não ser por um manto feito de trapos imundos, amarrados cm volta da cintura. ...Alguns desses seres puxavam pesadas carroças de carga presas a eles por cangas. Outros seguiam em fila, com enormes pesos na cabeça, murmurando uma cadência de sons inarticulados e tristes enquanto caminhavam. Alguns mastigavam cana ruidosamente, como bestas de carga comendo capim, e alguns eram vistos à beira d’água, deitados no chão em meio ao lixo, encolhidos como cães, como se não esperassem ou não quisessem mais conforto. Cavalos e mulas não eram usados dessa maneira; eram empregados apenas para o lazer e não para o trabalho. Podiam ser vistos nas mesmas ruas, bem tratados, cheios de vida e enfeitados com ricos jaezes, gozando de uni estado muito superior ao dos negros, parecendo olhar os infeli­zes acorrentados e carregados de pesos que passavam por eles como se fossem seres inferiores. Alguns negros realmente pareciam ter inveja dos jaezes de seus companheiros animais e olhavam cobiço­sos os seus arreios brilhantes.90

 

Para imprimir ritmo ao esforço e uniformidade ao passo, o chefe dos carregadores “entoa sempre alguma cantiga africana, curta e simples, ao cabo da qual o grupo todo responde em alto coro. .. .0 certo é que suas canções davam às ruas uma alegria que por outra forma lhes faltaria."91 Já para Debret, essas "canções importunam freqüentemente o estrangei­ro pacato, entregue a ocupações sérias nas suas lojas”,92 e na década de 1840 Ewhank chegou a sobressaltar-se com os cantos de um grupo de mais de vinte escravos que fazia o transporte de móveis e utensílios de uma família que se mudava para nova casa; segundo ele, aquilo era um alarido que me assustou como se viesse do Inferno” .93 Apesar de esses testemunhos serem cio século XIX, podemos perfeitamente projetá-los no passado colonial, quando as condições desse tipo de trabalho decerto não podiam deixar de ser idênticas.

 

Presunção da Fidalguia

 

Não bastava ganhar muito dinheiro e com ele comprar casas e terras. Havia que ser reconhecido e, se possível, admirado como pessoa de fino trato, algo próximo à fidalguia, o que não era pouco flutua terra onde a nobreza de sangue significava o topo da pirâmide social. Por isso, alardear amizades influentes, vestir-se com esmero, falar bonito, pavo­near opulência e, se possível, exibir boa árvore genealógica (mesmo falsa), dava importância maior às pessoas — ou pelo menos elas assim presumiam.

Gregório de Matos conta, em oito poemas, a história de uma dessas burlas.94 Um certo Pedro Álvares da Neiva, decerto em virtude do prestigio de um tio influente, sentou praça e logo fez-se capitão. Mas como era covarde, quando foi indicado para uma expedição marítima prometeu de recompensa uni chapéu e oito patacas a quem o substituísse (ver adiante, p. 300). O tio) comprou-lhe um cavalo, mas, péssimo cavaleiro, “Pedralves não há alcançá-lo, / porque não se sabe dele / se um cavalo tem a ele / ou se ele tem um cavalo.” Por cabalas de um frade terminou por casar-se com certa moça nobre e rica, após o que embarcou rumo a Lisboa. Tempos depois retornou pompeando título de nobreza, com direito a brasão, a tratar seus pares na terceira pessoa e a ser por todos admirado, visto que “ser fidalgo na Bahia / é suma felicidade, / porque ha de arder a cidade / flutua e noutra cortesia. A farsa não durou muito, Ao correr um boato de que chegara à cidade decreto delirei para prender quantos ostentassem título falso de no­breza, o impostor correu a asilar-se no convento do Carmo, com medo do castigo iminente.

Claro está que Gregório de Matos, em tudo morda,, nau podia deixar de escarnecer os novos-ricos que pretendiam exibir ares de fidalgos:

além desse caso notório do capitão Noiva, dedicou cinco poemas demo­lidores aos que assim se comportavam .95 Em um deles utiliza termos indígenas e africanos para ressaltar a origem local de quantos queriam a todo custo imputar-se nobre ascendência européia:96

 

Há coisa como ver um paiaiá97

mui prezado de ser caramuru,98

descendente de sangue de tatu,

cujo torpe idioma é cobé  pá.99

 

 

A linha feminina é carimá,100

moqueca, pititinga, caruru,

mingau de puba e vinho de caju

 pisado num pilão de Piraguá.

 

A masculina é um aricobé,

cuja filha cobé um branco paí

dormiu no promontório de Passé.

 

O branco era um marau que veio aqui,

ela era uma índia de Maré

cobé pá, aricobé, cobé paí.

 

Noutro, mesmo sem empregar aqueles recursos lingüísticos, volta ao tema da presunção de fidalguia ou de ascendência nobre por muitas pessoas da Colônia:101

 

Um rolim de Monai, bonzo bramá,102

 primaz da greparia do Pegu,103

que sem ser do Pequim, por ser do Açu,

 quer ser filho do Sol nascendo cá.

 

Tenha embora um avô nascido lá,

cá tem três para as partes do Cairu,

chama-se o principal Paraguaçu,

 descendente este tal de um guinamá.

 

Que é fidalgo nos ossos, cremos nós,

 que nisto consistia o mor brasão

daqueles que comiam seus avós.

 

E como isto lhe vem por geração,

tem tomado por timbre em seus teirós

morder aos que provêm de outra nação.

 

Até o circunspecto professor de grego Luís dos Santos Vilhena, mais ou menos cem anos depois e na mesma cidade do Salvador, não resistiu à ironia ao comentar a atitude de muita gente que pretendia convencer os outros de que era detentor de alguma espécie de nobreza. Ao que afirmava, há nesta cidade, e me consta que por todo o Brasil, ramos de muitas famílias ilustres, se não é que os apelidos são bastardos, dúvida a que nos conduzem as nossas Ordenações e algumas leis, onde vemos a qualidade da gente com que no princípio se começou a povoar esta vasta região. ...Outros há que se honram em deduzir a sua prosápia dos caboclos ou índios, quando outros se gloriam de descender de alguns dos ilustres governadores que antigamente governaram não só esta capitania como todo o Brasil, ou de algumas das diversas personagens que em vários tempos aqui aportaram. O certo é que se encontram bastantes sujeitos que não terão dúvida em tecer sua genealogia mais comprida que a dos hebreus e disputar nobreza com os grandes de todo o mundo, quando a que têm pode bem ser lhes provenha da desenvoltura de seus pais ou avós. Outros há que tendo seus pais vindo não há muitos anos para o Brasil para serem caixeiros, quando tivessem capacidade para o ser, porque a fortuna lhes foi propícia e juntaram grandes cabedais, cuidam seus filhos que o imperador da China é indigno de ser seu criado. Outros porém há que se preocuparam da mania de ser nobres antes que tivessem com que ostentar essa quimérica nobreza, e se chegaram a ter alguma coisa de seu, tanto se carregam dos apelidos de muitas das famílias ilustres da Corte e tanto se empavonam com esta imaginação, que têm para si que um duque é nada a sua vista. Há outros que, entusiasmados sem fundamento de que são alguma coisa neste mundo, vivendo em sua casa envolvidos na sórdida miséria, quando saem fora se empavesam de tal forma que até lhes custa reverenciar a Deus.104

 

Um contemporâneo de Vilhena, Tomás Antônio Gonzaga, também observava com humor, na década de 1780, que “aquele que se jacta de fidalgo / não cessa de contar progenitores / da raça dos suecos, mais dos godos”.105 Pouco mais de vinte anos depois, em 1807, o desembargador João Rodrigues de Brito igualmente denunciava o mesmo fato, mas sublinhou, com algum azedume, a causa desse comportamento; ao que dizia, uma das razões da ociosidade exagerada que se assinalava no Brasil era “a preocupação nacional que exclui dos empregos todo aquele que por si, seus pais ou avós tiver exercido artes mecânicas”.106 Essa atitude, como se viu, correlacionava-se estreitamente ao uso do trabalho escravo, de tal modo que as ‘artes mecânicas’, isto é, os ofícios manuais, se transformaram na Colônia em coisa de negro, atividade humilhante. A ostentação do ócio como sinal de bem-estar financeiro, entretanto, não bastava, O tempo livre do trabalho devia ser aplicado em demonstração de prestígio: ser reconhecido ou conversar com alguém importante na rua, ou, melhor ainda, ser recebido na casa de personagem influente ou (suprema glória!) recebê-lo em sua própria casa. Claro, só um nobre reconhecia outro nobre, só um nobre recebia outro nobre. E como procedia um nobre? Vivia de rendas, sem fazer qualquer esforço, sem se envolver em qualquer coisa que significasse trabalho manual. Daí, arrematava o desembargador Brito,

 

um escrivão da mais insignificante câmara não pode encartar-se na propriedade de seu ofício sem provar, verdadeira ou falsamente, a perpétua inação de seus braços e dos de seus pais e avós. De sorte que os netos de Pedro o Grande, imperador da Rússia, não poderiam entre nós conseguir os cargos de escrivães por ter aquele herói manchado suas mãos quando no Texel pegou na enxó e no machado.107

 

Assim era no Brasil colonial: ou se alardeava ócio — e portanto, de qualquer modo, fidalguia ou coisa próxima ou parecida a isso —, ou se submetia a uma existência socialmente apagada, e, aí sim, sujeita à exposição de seus delitos e à expiação de todas as penas previstas e inventadas para coibi-los.

 

 

 

Também fazia parte desse jogo ostentatório o trajar-se com apuro. Na rua, está claro, o que contava era justamente o alarde de abastança, por meio de emblemas exteriores. E isso, vale ressaltar, acontecia desde o começo da colonização regular nos centros mais abastados — Salvador e Olinda. Por volta de 1570 Gandavo asseverava: ali os moradores “tratam-se muito bem e são mais largos que a gente deste reino, assim no comer como no vestir as suas pessoas”.108 Na década de 1580 os padres Femão Cardim e José de Anchieta, bem como Gabriel Soares de Sousa, confirmariam a assertiva de Gandavo. Em Pernambuco o padre Cardim viu muita gente vestida “de veludo e damasco de várias co­tes” .109 Já em Salvador, dizia Gabriel Soares de Sousa que os colonos

 

tratam suas pessoas mui honradamente com muitos cavalos, criados e escravos, e com vestidos demasiados, especialmente as mulheres, porque não vestem senão sedas, por a terra não ser fria, no que fazem grandes despesas, mormente entre a gente de menor condi­ção: porque qualquer peão anda com calções e gibão de cetim ou damasco e trazem as mulheres com vasquinhas e gibões do mesmo.110

 

Anchieta, por sua vez, anotava que “os homens e mulheres portugueses, nesta terra, se vestem limpamente de todas as sedas, veludos, damascos, razes e panos finos como em Portugal, e nisto se tratam com fausto, máxime as mulheres, que vestem muitas sedas e jóias".111 Não muito depois, o escrivão do Santo Ofício assinalava que alguém se vestia “de festa, com calções e gibão de cetim”,112 referindo-se também a “vestidos de veludo lavrado” ,113 a “vestido de novo e de festa e galante com roupeta de gorgorão e gibão de seda”,114 a “gibão de cetim e roupeta de gorgorão”.115 Em meio a tanta roupa, os índios perambulavam de maneira um tanto excêntrica. Sobre eles Anchieta dizia com humor, em 1585, que

 

de ordinário andam nus e quando muito vestem alguma roupa de algodão ou de pano baixo e nisto usam de primores a seu modo, porque um dia saem com gorro, carapuça ou chapéu na cabeça e o mais nu; outro dia com seus sapatos ou botas e o mais nu; outras vezes trazem uma roupa curta até a cintura sem mais outra coisa. Quando casam vão às bodas vestidos e à tarde se vão passear somente com o gorro na cabeça sem outra roupa, e lhes parece que vão assim mui galantes."116

 

Excentricidades indígenas à parte (do ponto de vista do europeu), os colonos continuaram, pelo século XVII, a pavonear-se como podiam. E tanto que o frei Manuel Calado se mostrava convencido de que a perda de Pernambuco para os holandeses se devera a castigo divino pela dissolução dos costumes; um dos sinais mais evidentes desse fato, segundo ele, era que “as mulheres andavam tão louçãs e tão custosas que não se contentavam com os tafetás, chamalotes, veludos e outras sedas, senão que arrojavam as finas telas e ricos brocados”.117 Com efeito, um soldado batavo que participou da conquista de Olinda, Ambrosius Richs­hoffer, apreciou tanto a roupa de um inimigo morto que a tirou para si; ao que descreve, tratava-se de “um bonito par de calças de linho que lhe desciam até os artelhos. . . .Eram ornadas de rendas na abertura e nas bocas, e todas cosidas duas vezes e pospontadas com seda branca.” O morto parecia-lhe “não ter sido nenhum soldado ordinário ou mosque­tejro”.118 O exibicionismo chegou ao ponto de, pelo meio do século, em 1654, o padre Antônio Vieira julgar-se obrigado a vituperar do púlpito contra o gasto excessivo dos fiéis com tecidos, na cidade de São Luís:

 

Quem pesca a vida a todos os homens do Maranhão, e com quê? Um homem do mar com retalhos de pano. Vem um mestre de navio de Portugal com quatro varreduras das lojas, com quatro panos e quatro sedas que já se lhes passou a era e não têm gasto: e que faz? Isca com aqueles trapos aos moradores da nossa terra: dá-lhes uma sacadela e dá-lhes outra, com que cada vez lhes sobe mais o preço; e os bonitos, ou os que o querem parecer, todos esfaimados aos trapos, e ali ficam engasgados e presos, com dividas de um ano para outro ano, e de uma safra para outra safra, e lá vai a vida. Isto não é encarecimento. Todos a trabalhar toda a vida, ou na roça, ou na cana, ou no engenho, ou no tabacal: e este trabalho de toda a vida, quem o leva? Não o levam os coches, nem as liteiras, nem os cavalos, nem os escudeiros, nem os pajens, nem os lacaios, nem as tapeçarias, nem as pinturas, nem as baixelas, nem as jóias; pois em que se vai e despende toda a vida? No triste farrapo com que saem à rua, e para isso se matam todo o ano.119

 

Vieira bem sabia do que falava, pois setenta anos mais tarde um comerciante escrevia do Rio de Janeiro: “Reparo que não vem pessoa alguma, desde o maior ao mais pequeno na nau, que não traga fazendas para vender.”120 E vendia-se de tudo, desde os tecidos mais grosseiros às sedas (como damasco, primavera e nobreza), cetins, linhos e lãs finas, rendas... O público era tão exigente que os negociantes tinham do recomendar a seus fornecedores que tais mercadorias fossem “sempre das mais seletas que houver, pois que cá se sabe tão bem reputar melhor das que forem inferiores e somemos”.121 Em 1768 o governador de São Paulo, com efeito, asseverava que ‘o luxo dos vestidos é desigual à possibilidade desta gente; se as fazendas fossem do Reino tudo ficava. em casa, porém sendo estrangeiras não há ouro que as pague. ...Tudo isto compra-se fiado, ao depois estuda-se para se pagar."122

Ao que parece, nem os sacerdotes, que por profissão deviam ser recatados, escapavam à tentação de trajar-se com apuro mundano. A Igreja, no entanto, dava ordens claras a tal respeito: “Os clérigos se devem abster de toda a pompa, luxo e ornato dos vestidos, para que sendo no estado clérigos, não pareçam no hábito seculares." 123Nerihum padre, assim, devia usar, mesmo nos “vestidos interiores”, quaisquer tipos de “guarnições, passamanes, galões, espiguilhas, alamares de ouro, prata, dourados ou prateados”; já as meias não trariam “ligas de sedas com rosas, como costumam os seculares, nem com pontas ou rendas de ouro, prata ou retrós”.124 Ainda assim Nuno Marques Pereira fala de “um clérigo de ordens menores, todo arregaçado”, que viu passar em deter­minada rua de Salvador; estranhou, porém, o fato de ele exibir “unia grande corcova nas costas”, pois o concílio de Trento dispunha “que não se ordenassem homens que tivessem defeitos naturais”. Foi-lhe explicado, todavia, que “nada tem de carcunda aquele clérigo, e suposto que o pareça pelo enchimento que lhe vedes, é em razão de ajuntar parto da loba (i.e., batina) e capa, para mostrar a véstia, calções e meias de seda”.125

O Estado também pretendia conter o luxo dos súditos por meio de sucessivas pragmáticas (regras para as cerimônias públicas). Na de 1749 declarava-se que a ninguém seria lícito ostentar, em qualquer parte do vestuário, determinados ornatos, como fitas, telas, galancins, fr